O ex-presidente do Banco Central (BC), Armínio Fraga, declarou nesta quarta-feira (12) que o atual cenário econômico do Brasil, marcado pela taxa de juros elevada e pela crescente relação dívida/PIB, demonstra sinais alarmantes de um “paciente na UTI”.
Fraga também destacou que, diante dessa situação, a única forma de apoiar o trabalho do Banco Central é por meio da política fiscal. Sua análise foi feita durante um seminário promovido pelo Instituto de Estudos de Política Econômica/Casa das Garças, no Rio de Janeiro.
“A curva de juros está lá na Lua, a perder de vista. As expectativas de inflação — não as de curto prazo, mas as taxas implícitas, em 6% — estão a perder de vista, sugerindo um problema. E o problema, em última instância, é que o BC precisa de ajuda. E só tem um lugar que pode ajudar: é o fiscal” afirmou o ex-presidente.
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Armínio Fraga defende foco no controle fiscal
O sócio fundador da Gávea Investimentos, que acompanhava o seminário do novo presidente do Banco Central, Gabriel Galípolo, destacou que o economista precisará convencer o governo a focar nas questões fiscais.
Fraga afirmou que Galípolo terá que tomar um “suco amargo”, referindo-se ao aumento da taxa de juros, a Selic, como medida para controlar a inflação e desacelerar a economia. Por outro lado, ele sugeriu que Galípolo poderia impulsionar o debate sobre o controle das contas públicas, o que ajudaria a facilitar a atuação da política monetária.
“Você, como uma pessoa de confiança das altas autoridades, talvez consiga convencê-las (em referência ao presidente Lula e ao governo) de que não há mágica. O que aconteceu até agora foi muito bom, o desemprego está baixo. É um sonho. Mas a festa meio que acabou. E não se trata de um problema de comunicação (do governo)” afirmou.
Fraga, que presidiu o Banco Central entre 1999 e 2003, afirmou que o remédio (juros mais altos) será eficaz para desacelerar a atividade econômica, mas ressaltou que a autarquia “não faz milagres”. O economista reconheceu que pode ser difícil para Galípolo abordar o tema dos gastos públicos, mas enfatizou que essa conversa é essencial e que, aparentemente, não está na agenda do governo.
“O paciente (em referência à economia brasileira) está na UTI. Não precisamos nem entrar na discussão sobre se é trágico, ou sobre a dominância fiscal. Isso é algo muito acadêmico. O “mix macro” precisa mudar, e acho que isso não parece estar na agenda”, concluiu.
Resposta de Galípolo
Em resposta, o atual presidente do BC afirmou reconhecer que existem dois desafios principais ao atuar como porta-voz do Banco Central: o primeiro é definir o limite do que a autoridade monetária deve comunicar e como transmitir suas decisões de maneira adequada.
De acordo com Galípolo, esse obstáculo parece ter sido superado, já que ele tem tido “espaço e voz” para isso, buscando explicar ao mercado o que está ocorrendo. O segundo desafio é determinar até onde vai a função institucional da autoridade monetária:
“Isso faz parte de um desafio, que é não ultrapassar uma linha e não sair do escopo da política monetária. Mas você mencionou um tema (política fiscal) de uma forma que é um dos assuntos com os quais temos que “lutar” agora”, destacou em resposta a Arminio.
Galípolo ainda considerou que o “remédio” da política monetária será eficaz para conter a inflação, destacando que essa análise é compartilhada pelo mercado, que prevê uma desaceleração da economia.
No entanto, ele observou que o mercado está menos atento ao impacto da política monetária e mais preocupado com a resposta do governo diante de uma possível desaceleração da atividade.
“Isso não é simples de você endereçar enquanto autoridade monetária. Uma coisa é você ser preventivo a algo que está presente, outra coisa é você lutar com algo que não existe ainda, ou que possa nem existir”, afirmou.
Após o seminário, Galípolo e Arminio tiveram uma reunião privada na sede do Banco Central no Rio, para discutir questões institucionais.
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