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Brainstorming: Envolva filhas e filhos nas finanças da família

Brainstorming: Envolva filhas e filhos nas finanças da família

Guilherme da Nóbrega

Guilherme da Nóbrega

30 Jun 2022 às 13:32 · Última atualização: 04 Jul 2022 · 9 min leitura

Guilherme da Nóbrega

30 Jun 2022 às 13:32 · 9 min leitura
Última atualização: 04 Jul 2022

ilustração de pais protegendo filhos

Reprodução/Pixabay

Fui desafiado a escrever sobre o tema finanças da família depois de contar à Olivia Alonso, CEO da Monett, sobre como construo poupança para meus filhos – primeiro, para os mais velhos e, hoje, para os mais novos.

Gostei de refletir sobre o assunto e de organizar ideias para sua leitura. Espero que aproveite e tenha utilidade para sua família!

Familiaridade com finanças tem valor. E é sempre mais provável alcançarmos qualquer objetivo quando não estamos sós. No tema patrimonial, é comum o desafio ser compartilhado pelo casal, ou ter o apoio de família, de um bom amigo, uma boa amiga. Mas, costumamos ignorar o valor de envolver filhos. O que é bom para a família e para sua formação.

Costumamos lhes negar um aprendizado que é parte da vida, mas que não é ensinado na escola.

Há argumentos para não envolver crianças em finanças. Não queremos sobrecarregá-los com problemas de adultos: dívidas, renda insuficiente e outros itens que não parecem ser do seu mundo.

Pode nos constranger lhes expor nossos erros (uma compra errada, uma perdida…). Ou não termos paciência para lhes explicar nossos êxitos ou falhas.

Mas há grandes benefícios de longo e curto prazo. Crianças aprendem com exemplos. Sim, nossos filhos vivem nosso mundo financeiro, mas não costumam conhecer o quadro geral (que pode incluir dívidas elevadas, investimentos, planos refeitos e outros detalhes). Vão aprender da forma incompleta, ou sós, quando começarem a tomar suas próprias decisões.

Sabedoria sobre dinheiro é aprendida. Filhos que não aprendem com os pais adiante terão que contar com sua própria experiência. Ter em casa suas primeiras aulas terá uma vantagem quando forem ao mundo real. Não quero dizer que fui grande professor, só quero te convidar a refletir sobre sua experiência como pai/mãe, filho/filha…

Os benefícios de envolver crianças em finanças superam as desvantagens. Óbvio que devemos ir só ao que é apropriado para suas idades e estilos. Não precisamos revelar todos os detalhes. Nem ser perfeitos: faz parte que se inteirem de algum erro do pai e da mãe.

Como envolver os filhos nos objetivos da família

Seu foco pode ser sair de dívidas, pagar a casa, comprar uma nova, desfrutar daquelas férias incríveis, guardar para atender escola e outras etapas dos filhos ou construir sólido patrimônio. Torne seus filhos parte disso. Envolvê-los em metas financeiras une a família. Torne-os parte da equipe.

Entusiasmo (ou pessimismo) são contagiosos. Diga a eles quais mudanças você está fazendo para alcançar a meta e deixe-os saber como podem contribuir. Coisas básicas a fazer e a não fazer.

Finanças da família: o que fazer

  1. Deixe-os saber como se beneficiarão das metas da família.
  2. Diga-lhes por que são parte do objetivo.
  3. Explique como podem ajudar.
  4. Observe e aprecie seus esforços.
  5. Busque tornar tudo divertido e envolvente, como um jogo ou desafio.
  6. Envolva-os na celebração dos avanços.

Finanças da família: o que não fazer

  1. Não os sobrecarregue.
  2. Tenha em conta idades, experiências e perfis.
  3. Não lhes dê mais informações do que precisam. Números e detalhes podem ser pesados para alguns.
  4. Não os faça se sentirem culpados – a culpa não é um motivador sustentável, como você sabe.

Por que fazer sacrifícios?

Claro que mudar a forma como você gasta dinheiro afeta seus filhos, e será mais natural se todos se tornarem sócios da família.

Exemplos simples: talvez eles comprem lanches na escola, mas podem passar a embalar seus lanches e levá-los de casa. Talvez tenham o hábito de comer num fast food depois do futebol ou do balé, e podem se acostumar a esperar para chegar em casa para jantar.

Se você migrar a um plano mais barato de TV a cabo para reduzir gastos, seus filhos vão aprovar se forem parte do projeto. Seja lá como você corta gastos, filhos poderão ser afetados, mas compreenderão a busca por um menor mix de gastos. E aceitarão ainda mais os ajustes que não os atinge diretamente.

Claro: se não conhecem as razões das mudanças, ficarão frustrados com o que você está tentando criar. Talvez descontentes a ponto de frustrar teu plano. Mas se motivarão se estiverem envolvidos. Perceberão que você não está buscando piorar suas vidas, e sim melhorá-las. Metas compartilhadas motivam!

Isso vai te dar mais rigor: um erro do casal pode gerar um gasto extra. Digamos que vocês se confundiram sobre a hora de um evento no sábado. Em vez de irem de metrô, terão que ir de Uber, raspando o “dinheiro de diversão” ainda disponível no mês.

Em vez de apreciar o passeio de Uber, as crianças podem ficar chateadas. “Porque estamos indo de Uber, tão mais caro do que metrô? Perderam suas agendas? Não estamos guardando dinheiro para aquelas férias na Argentina?” Crianças treinadas em finanças podem te ajudar a evitar erros…

Sucesso do grupo

Como parte da equipe, seus filhos vão compartilhar o sucesso rumo a objetivos. Sentirão que eles fazem diferença. “Veni, vidi, vici”: crianças e adultos apreciam mais o que trabalham duro para conquistar.

Participar nos objetivos financeiros da família reforça neles o valor de ter metas. Aumenta suas habilidades financeiras e sua autodisciplina, fundamentais para no futuro irem ao sucesso pessoal.

Cada família terá uma forma de incluir crianças e adolescentes na equipe financeira. Pense em como pode envolver as suas. Que contribuições podem dar? Como empolgá-los? O que você faz (ou vê alguém fazer) para envolver as crianças? Como ajudar seus filhos a se motivarem com metas financeiras?

O papel da mesada

Varia o papel da mesada. Em algumas famílias, se acaba a mesada do mês, os filhos precisam adiar um cinema, ou perder um almoço, show ou outro evento com amigos. Em outras, a mesada mal existe, ou atende só gastos triviais e nos fins de semana os pais decidem sobre os pedidos de recursos que surgem.

Vale dar sentido à mesada e, talvez, subi-la para dar a filhas e filhos a opção de fazer, recusar, ou se arrepender de não ter recursos para algo.

E pode valer também que seja pré-pago o celular da turma.

Vale citar a “mesada de shopping” que uma amiga concede a sua sobrinha de 3 anos. Sempre que vão a um shopping, a pequena ganha R$ 20 para gastar no que quiser. É seu primeiro curso de orçamento e finanças: “Tia, gostei disso aqui. Está muito caro?”.

Pode até receber uma orientação, mas é sua a decisão: comprar algo que custa R$ 20, quatro coisas que custam R$ 5, etc. Aí está: até uma criança de 3 anos é capaz de aprender algo sobre finanças? Guarde essa ideia e pense em adotá-la, mesmo com crianças e jovens mais velhos.

Investir desde cedo

Para nossos dois filhos, durante cerca de 5 anos, desde quando eles tinham 9-12 anos, minha primeira esposa e eu criamos investimentos em seus nomes. Optamos por só revelar-lhes quando tivessem 18 anos.

Sendo ainda tão jovens, nos ocorreu que poderiam liquidar a descoberta em compras incorretas, ignorando que patrimônio é parte da vida.

Não foi assim. Os dois até gastaram um pouco nos seus semestres de USP no exterior, mas iniciaram suas vidas de trabalho com um patrimônio a preservar, engordar e talvez criar planos. Para muitos, o habitual ainda é vir primeiro o trabalho, o casamento e, só então, sobras de renda que permitem pensar em patrimônio.

Que tal antecipar a hora em que filhos pensam em patrimônio? Tenho uma filha e um filho mais jovens, com 15-16 anos. Já criei investimento em nome deles, de cuja existência já souberam mais jovens do que seus irmãos mais velhos. Afinal, não estão tão longe dos 18, têm bom senso e já parecem intuir o que é patrimônio, como os mais velhos logo fizeram.

Você já pensou sobre quanto teenagers podem compreender e valorizar um patrimônio? E como essa sabedoria pode avançar cedo em suas mentes?

O aprendizado pode ser antecipado. Patrimônio é parte da vida. E, como tudo na vida, envolve decisões boas e ruins, aprendizado e crescimento. Não perca a oportunidade de ensinar isso a crianças e a jovens de sua casa ou sua família, no nível de detalhe que fizer sentido.

O patrimônio da família pertence aos filhos de duas formas: seu valor, e o que pode ensinar sobre a vida. Dê-lhes sabedoria sobre dinheiro. E aproveite para sempre continuar a aprender!

Por Guilherme da Nóbrega, colunista da Monett, economista pela London School of Economics and Political Science, com mestrado em economia na PUC-Rio, autor do livro “A Economia é uma mistura de jogos e descobertas”.

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