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Carta do BC prevê retorno ao intervalo de tolerância da inflação em 2026

Carta do BC prevê retorno ao intervalo de tolerância da inflação em 2026

Saiba mais sobre a carta do BC ao ministro da Fazenda e as razões para o descumprimento da meta de inflação.

O presidente do Banco Central, Gabriel Galípolo, divulgou nesta quinta-feira (10) a aguardada carta do BC ao ministro da Fazenda, Fernando Haddad, em que detalha as razões para o descumprimento da meta contínua de inflação nos últimos seis meses. Segundo o documento, a autoridade monetária mantém o compromisso com a meta de 3% ao ano e estima que a taxa volte ao intervalo de tolerância apenas no final do primeiro trimestre de 2026.

O envio da carta é obrigatório sempre que a inflação acumulada em 12 meses ultrapassa os limites estabelecidos pelo Conselho Monetário Nacional (CMN), como ocorreu até junho deste ano. No período, o Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) acumulou alta de 5,35%, superando o teto da meta, fixado em 4,5%.

No texto, Galípolo reforça que o BC investirá na comunicação com a sociedade e os agentes econômicos, detalhando as causas do desvio, as medidas adotadas e a trajetória esperada de convergência da inflação.

Carta do BC lista os fatores que explicam o desvio da meta

A carta do BC identifica a inércia inflacionária como um dos principais fatores do descumprimento da meta, com contribuição de 0,69 ponto percentual. Esse componente está relacionado ao repasse da inflação passada para os preços atuais, tanto por meio de mecanismos informais de indexação salarial quanto por arranjos institucionais que vinculam reajustes de preços administrados à inflação anterior.

As expectativas de inflação desancoradas também tiveram papel central, contribuindo com 0,58 ponto percentual para o desvio. Desde meados de 2024, as projeções do mercado vêm se mantendo persistentemente acima da meta de 3%, influenciadas pela percepção de um câmbio mais depreciado e por uma atividade econômica mais aquecida. Para prazos mais longos, essas expectativas mostram rigidez, o que tende a amplificar a sensibilidade da inflação a choques de curto prazo.

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Outro fator relevante foi o hiato do produto positivo, com impacto de 0,47 ponto percentual. A economia surpreendeu com uma atividade mais dinâmica, puxada principalmente pelo desempenho do setor agropecuário e pela força do mercado de trabalho. A taxa de desemprego caiu para 6,2% no trimestre encerrado em abril, atingindo uma mínima histórica. Essa combinação elevou o uso da capacidade instalada e pressionou os preços, especialmente no início de 2025.

A inflação importada também pesou no índice, com contribuição de 0,46 ponto percentual. Os efeitos defasados da depreciação cambial registrada ao longo de 2024 ainda foram sentidos no segundo trimestre de 2025, pressionando os preços de bens industriais e alimentos processados. Por outro lado, a queda nos preços do petróleo ajudou a conter parte da alta nos combustíveis.

A carta ainda destaca a contribuição das bandeiras tarifárias de energia elétrica, que adicionaram 0,27 ponto percentual à inflação. Outros fatores diversos contribuíram com -0,12 ponto percentual, reduzindo ligeiramente o impacto total.

Medidas e perspectivas

Apesar da trajetória fora da meta, Galípolo reiterou que o Banco Central segue comprometido com a convergência da inflação e vem adotando medidas compatíveis com esse objetivo. Segundo ele, o ambiente de inflação elevada é resultado de fatores que vão desde choques externos até pressões internas, como resiliência da atividade econômica e efeitos da inflação passada.

A autoridade monetária prevê que a inflação retorne aos limites do intervalo de tolerância — entre 1,5% e 4,5% — a partir do fim do primeiro trimestre de 2026. A expectativa é que o processo de desinflação avance de forma gradual, à medida que a atividade econômica se ajuste e as expectativas se reancorem.

A carta do BC também sinaliza que, caso a desancoragem das expectativas persista, os choques de curto prazo poderão ter efeitos ainda mais intensos sobre preços e salários, dificultando a tarefa da política monetária. O documento será avaliado pelo Conselho Monetário Nacional e serve como instrumento de transparência e prestação de contas da autoridade monetária ao poder público e à sociedade.